SOBRE PAISAGEM

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As sutilezas da paisagem de Chica Ponta Negra

Na exposição “Sobre Paisagem”, que estreia dia 22 de julho, na Casa da Cultura, a artista caiçara retrata cenas de seu cotidiano em desenhos a lápis, tinta nanquim, óleo e acrílica, sobre papel

“Falar de paisagem, mais do que um tema, é um ato político”, diz Chica Ponta Negra. A exposição “Sobre Paisagem”, promovida pela Associação Paraty Cultural, de 22 de julho a 20 de agosto, na Casa da Cultura, traz cenas do cotidiano da artista, retratadas in loco, no trajeto diário que ela faz entre Paraty e sua casa na roça. Com o passar do tempo, Chica vem testemunhando a natureza à sua volta se modificar pelo desmatamento e as mudanças climáticas. “Ao menos três novos condomínios surgiram. Num dia conto cinco árvores, no outro, nenhuma. Vejo a mata se esvaindo e fico desesperada. Quero desenhá-la enquanto existe”, diz.

A forte ligação com a natureza é de alguém que tem praia no nome. Uma ideia da mãe que, ao transformar o lugar em que a filha nasceu em sobrenome, batizou-a como artista. Ponta Negra, praia pequena e protegida, onde só se chega de trilha ou de barco, foi a primeira paisagem explorada pela pequena Francisca. Na vila de pescadores de Trindade, em Paraty, ela cresceu com um pé na areia e outro na mata.”Estar na natureza me traz a consciência de uma experiência sublime, de contato com o divino. Seu desenrolar de formas e detalhes preenche meus olhos, meu pensamento deixa de vaguear e se instala no presente”, diz Chica, fazendo poesia.

Aos poucos, mar, montanha e cidade foram se misturando aos olhos da menina caiçara. Aos 6 anos, ela teve seu primeiro contato com a arte, guiada pela artista plástica Patricia Sada, mexicana, radicada em Paraty. Incentivada pela mãe, professora do ensino municipal, Chica frequentou informalmente o ateliê da artista. “Ela me dava direções, propondo colagens, desenhos. Lembro de desenhar as flores e folhagens do jardim da casa dela”, lembra. 

Foi o que bastou para se apaixonar pelos lápis, tintas e pincéis. Sempre circulando entre os ateliês da cidade, na adolescência, arriscou as primeiras telas e chegou a montar o ateliê Magnólia, no Centro Histórico. Por um ano, cursou a EBA (Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde aprendeu a estrutura clássica do desenho, antes de optar pela formação em arte na Unicamp (Universidade estadual de Campinas).

De volta a Paraty, conta que decidiu “sair do papel A4” e investigar mais a pintura. “O gesto era o mesmo, mas eu sofria com a técnica”, lembra. Depois de uma produção de 20 telas, colocou-as lado a lado e concluiu que não havia unidade entre elas. Voltou às origens do desenho, buscando formas botânicas, explorando textura, profundidade. Dessa procura, em 2016, nasceu boa parte dos desenhos da mostra promovida pela Casa da Cultura, onde ela também atua como professora do curso de arte para crianças.

São trabalhos em grafite, tinta à óleo, acrílica, entre outras técnicas mistas. Todos sobre papel.”Essa exposição é um divisor de águas, por espelhar uma fase mais madura”, diz Chica, aos 32 anos. O preto no branco, traçado na ponta fina da caneta, é um desafio. “O nanquim me obriga a voltar várias vezes ao desenho e trabalhar o contraste”, diz.

Sob seu olhar atento, desfilam árvores, flores e morros.”Fico tentando entender o movimento das montanhas, quando uma acaba e outra começa…”, diz. Foi assim com o “Morro do Condado”, que ilustra o cartaz da exposição. “É um morro indecifrável, por ter nuances infindáveis, de acordo com o sol estridente ou a pouca luz”, diz Chica, convidando o espectador a observar as sutilezas de sua paisagem.

A exposição “Sobre Paisagem” estreia no dia 22 de julho, ás 20h, e fica em cartaz até 20 de agosto.

Texto: Rosane Queiroz